Vera Saldanha – Campinas, 10 de setembro de 2019

Talvez na próxima geração de psicólogos mais jovens, esperançosamente libertos das proibições e resistências universitárias, haja alguns que ousarão investigar a possibilidade de haver uma realidade licita, que não está exposta aos cinco sentidos; uma realidade na qual o presente, o passado e o tempo desparecem, uma realidade que pode ser percebida e conhecida somente quanto somos passivamente receptivos, em vez de ativamente inclinados a conhecer. É um dos desafios mais excitante postos à Psicologia”.

Carl Rogers

 

O QUE SÃO SONHOS?

Comunicação, premonição, soluções, antecipações. Tudo isso e muito mais.

A organização e aprimoramento dos processos mentais necessitam de uma pausa na consciência de vigília. A análise crítica constante da mente racional bloqueia processos de apreensão da realidade essencial; no sonho essa realidade se revela.

Entretanto, muitas vezes, não damos atenção ou o que é pior, usamos apenas a nossa análise crítica, racional da consciência de vigília, com as inquietações do nosso dia a dia, que sequestram a essência dos processos da vida real, eterna da consciência e unidade. Da vida que realmente é, nos move, traz esperança ativa, a busca com ação e entusiasmo.

Encontros? Muitos são os eventos que ocorrem em nossos sonhos. A consciência expandida deixa de ter espaço e tempo limitado. É tempo e espaço ilimitados.

Deixa de ter classificações como encarnados, desencarnados, seres vivos, seres mortos. Tudo é vida. Tudo está vivo. Só há diferença dos estados de matéria ou de frequência de energia, se acharem melhor. Assim diante de um manancial de conhecimento, de importância salutar, como utilizar mais essa possibilidade diária e esplendorosa que nos cerca?

Paz, paz, paz, essa é a condição fundamental para a serenidade necessária de apreensão de uma realidade maior nos nossos estados de sonho. Uma serena e doce alegria, a presença.

O estado meditativo de não pensamento, é uma condição essencial, não só para um dia mais saudável e produtivo, mas sobretudo para uma noite de sonhos, de encontros mais lúcidos.

Sem o turbilhão de atividades que se dizem às vezes necessário, que envolve a organização diária no planeta Terra, focamos e recebemos com clareza, informações, direções e soluções. Assim para desvelar os sonhos há que se meditar. Portanto antes de focarmos os sonhos, há que se focar a meditação.

E o que é meditação?


MEDITAÇÃO

Tantos e tantos tratados já foram escritos sobre este tema, desde as tradições mais antigas à moderna psicologia e neurociências.

Entretanto, se tornam confusas as ideias a respeito desta prática. Ela não pode ser simplesmente uma técnica dissociada de suas ações contínuas e diárias. Ela não é mais um “fazer”. Uma tarefa ou compromisso diário entre tantos que assumimos.

A qualidade de presença em suas ações é que determinará o grau meditativo em sua vida. Se há vigor, envolvimento, se há energia transbordando, há consciência, há unidade, há presença. Se há inquietação, temores, medos, há conflito, há sofrimento, ilusão e perda de visão, há fragmentação.

Se há fragmentação não há meditação.

A fragmentação nos tira do estado meditativo.

E o que é fragmentação? Simplesmente é “essa coisa”, este estado de percepção distorcidos, equivocados que nos separa da realidade maior de nosso ser essencial.

Do ser que realmente sempre foi, não nasceu neste planeta, está neste planeta, aquele que nos conduz ao que verdadeiramente somos em direção a nós mesmos. A nossa dimensão esquecida muitas vezes abandonada e negada.

Solte-se, deixe que as ideias de análise, de julgamento, dos conceitos conhecidos, simplesmente se dissipem em sua mente. Elas são importantes quando você redigir textos, ou realizar ações específicas, relacionadas àquele pensamento ou conhecimento aprendido.

Entretanto ao interpor suas pré-ideias concebidas, você se fecha ao novo, ao inusitado, você se fecha à vida que flui; você se fecha à realidade maior.

A realidade não é a que nossos olhos veem, mas o que nosso coração sente.

Os sonhos, por serem sonhos, ampliam nossa percepção de realidade, são um estado de expansão de consciência. Nos tiram essa visão limitada que impede a percepção do coração, da essência, do fluxo da vida.

É essa visão limitada que é estruturada em nossa mente, em nossos conceito e crenças, fundamentalmente em nosso ego, que deseja ter sapiência e controle de tudo que o cerca. Isto é fragmentação.

Não se exerce o controle sobre nada na realidade maior, pois para ter controle, como tão bem mostraram os experimentalistas, é necessário delimitar, fazer um “recorte” da realidade, fazer uma fragmentação. Nossa vida, não é um estudo a ser recortado, mas sim um conhecimento a ser vivido, ilimitado, infinito. Um universo de inúmeras possibilidades. Uma experiência da consciência a ser despertada.

Os sonhos podem ajudar o despertar desta consciência, podem auxiliar a dissipar esses véus que nos impedem de fluir e acessar o conhecimento maior que possuímos. Os sonhos são sementes precisando serem regadas para germinarem, crescerem e florescerem.

A meditação é a rega, a nutrição, a condição para germinarem; é o estado que oportuniza este florescer, desabrochar e o crescer saudável dessa semente de vida.

O sonho é o contato direto com essas realidades distintas, adormecidas nas quais não se analisa, não se interpreta, não se limita. Sente-se, vive-se, acorda-se” em nossa consciência adormecida.

Por essa exclusão nosso estado usual é o de não vida, é de autômatos, de letargia ou compulsão, que leva a dissociação, à fragmentação.

Somente técnicas de preparação pré-onírica, ou de análise dos sonhos, são insuficientes, assim vamos ao cerne do nosso despertar real, para a consciência e meditação dos sonhos e da vigília.

A seguir então, vamos trazer alguns passos especiais à meditação e só então abrir o manancial do sonho lúcido, do sonho revelador.

Pausar, silenciar, meditar.

Despertar! Mesmo quando sonha!


COMO MEDITAR

A posição do corpo tão divulgada nas práticas meditativas em posição de lótus ou de iogue, nem sempre é a posição mais indicada para nós ocidentais.

Nossa cultura tem por hábito sentar em cadeiras.

Assim, sente-se na cadeira, pés com pés, bem no chão em ângulo de 45 graus.

Mãos soltas naturalmente ao longo do corpo sobre as pernas. Esta é a postura.

Às vezes ao entrar no estado de presença você sentirá necessidade de se movimentar, ajeitar-se, alinhar mais seu corpo, sua coluna. Faça isto.

É difícil? É impossível aprender a meditar?

Essa é uma pergunta que muitos se fazem. Sem dúvida, na contemporaneidade vem se tornando cada vez mais um ato, ato de amor.

É impossível amar? Para meditar exige-se a capacidade intrínseca de amar.

É impossível amar?

Cada vez mais, meditação e amor se entrelaçam na escola do saber, na experiência de realmente ser e viver.

Para meditar exige-se entrega, não há meditação sem entrega. Para entrega é necessário confiar, para confiar é necessário aceitar incondicionalmente.

Aceitar-se, aceitar o outro, aceitar as circunstâncias, aceitar o todo, até o inaceitável.

Só se aceita incondicionalmente na esfera do estado de amor, que não julga, que testemunha, que tem compaixão, que esclarece, que ilumina, que se perdoa, que perdoa o outro.

Sem essa subjetivação do amor há prisão no pseudo estado meditativo.

Prisão que muitas vezes se torna arrogância, distanciamento, isolamento, julgamento, separação. Separação que se torna fragmentação.

Fragmentação é o oposto da meditação. Medita-se em ser um para se integrar.

Neste estado meditativo não há separação do dentro e do fora, do eu e do outro. Há paz, contentamento, serenidade, amorosidade que se reflete em um estado de profundo amor.

Então sim, chegamos ao estado meditativo, e viveremos a não separação, a iluminação.

A iluminação pode ser experimentada em momentos como “flashs” rápidos, instantâneos, durante o processo de meditação. Entretanto, quando é um estado genuíno, mesmo estes breves instantes não são como fogos de artifícios que iluminam, e a seguir nos levam a uma profunda escuridão, até mesmo um desconforto pelo barulho, pelo eco que ainda ressoa no ar, e pelo odor do queimado, poluído.

Não, estes breves instantes resultam em acréscimo, benefício, mente mais lúcida, ação com mais precisão.

Resulta cada vez mais em acréscimo a um estado de lucidez mental, de clareza de raciocínio.

A evolução do ser não se torna assim atos isolados ou técnicos. Não basta a técnica meditativa, mesmo que está se dê ao longo de anos e anos.

Há que se trabalhar as emoções negativas, destrutivas; há que se buscar a ética natural nos pensamentos, nas ações; há que se desfazer o mar das projeções que o ego continuamente lança sobre os outros, sobre a vida e sobre as instituições eximindo o próprio sujeito da ação de crescer. Ou pior ainda, considero que vai aleijando o indivíduo de se perceber, levando-o à escravidão e à ignorância de si mesmo, em crenças e incessantes pensamentos automáticos que o dominam completamente.

Julgamento, divisão como não os exercer, como não os fazer?

Pode-se alienar da realidade social? Distanciar-se? Evitar até mesmo informações, o que facilitaria o não envolvimento?

Porém o não envolvimento não significa absolutamente não julgamento, apenas caracteriza muitas vezes uma simples omissão, a qual pode ter por traz uma crença conceitual.

Assim mesmo o que fazer diante de si próprio, e daqueles que convivem no dia a dia muito próximo, alvos fáceis doa autojulgamento e das projeções do inconsciente familiar?

Como exercer um diálogo sadio? Uma convivência saudável, que caracterize relações de troca, de crescimento, sem fragmentações, juízos críticos ou julgamentos?

Eis um dos maiores obstáculos, um dos maiores desafios que se impõem ao crescimento espiritual. O atravessar continuamente o mar de relações sem se deixar afogar em mágoas, rancores, exigências, rigidez, inflações do ego, julgamentos.

O que a relação com o outro nos impõe? Acima de tudo a relação saudável com nós próprios.

Lembre-se de que a meditação é o instante de maior relação consigo próprio.

Desta forma a relação com o outro reflete inevitavelmente a relação mais íntima consigo próprio.

Observe-se durante o seu processo meditativo.

Há inquietação?

Sente-se ansioso?

Cria expectativa, se dispersa? Fica ausente, em transe idealizado?

Permite-se estar entregue?

Há acolhimento individual do momento, do instante que você se disponibiliza ao processo meditativo?

Ah! Como responder tais questões sem se deixar enredar pelas armadilhas do ego, que contará para você lindas e belas histórias sobre si mesmo? Ou, como um tirano cruel te humilhará, o criticará durante, tentando convencê-lo de que você é totalmente incapaz, inábil ou incompetente para meditar.

Portanto observe seu corpo, este é o primeiro grande instrumento de ajuste e lucidez que a meditação nos traz.

Há tensão? Há desconforto? Onde ocorrem dores, desajustes?

Qual a consciência que este momento nos traz, o que está desajustado?

Sugestão: ajuste a coluna, as vértebras, alinhe e faça crescer a coluna, ambos os lados, do centro para baixo e para o alto.

Ela te ensina mais e mais aonde alongar, onde está presa a energia, o bloqueio à entrega, nos ombros, nos braços? O que você evita abraçar em si no outro?

O que você carrega em excesso, seja do passado ou do momento atual?

Em que você se antecipa e se desconecta?

Será que a tensão ocorre mais na base, no quadril, na região da pélvis?

Qual o prazer que evita a si próprio?

Que ideias, ideais, ações, desejos, realizações você impede a si mesmo de fazer nascer, de dar à luz ou de fecundar e gestar?

Será que é o ventre que pesa, entorpece, qual o plano de competição, poder que você evita ou ao contrário, vive todo tempo?

Nosso corpo fala, dá sinais, referências do que nos acontece dentro, e na relação fora; o corpo não mente, fala silenciosamente.

Que tensões sua cabeça, sua face insiste em prender?

Que caminhos suas pernas, seus pés estão cansados de repetir dentro de si e da vida?

Tome consciência: esse é um dos grandes instrumentos que a meditação nos traz; a consciência – dentro, a consciência – fora, até que se torne uma só, uma única referência, uma única ação de coerência, de integridade, não só com o outro, mas consigo.

E a partir da generosidade, da lealdade, da acessibilidade que tenha para consigo em sua sombra ou luz, em sua organização ou desorganização, é que se estruturará um caminho de construção e mudança.

Sem consciência desperta, o sujeito é lançado a julgamentos, a pré-ocupações, pré-julgamentos, pré-soluções e certamente obstruções do caminho que inova, que cria, que ultrapassa e vence os obstáculos.

Cada obstáculo é a constatação de um desafio a ser vencido, de um nó a ser desatado, na estrutura do pensamento.

Nesse sentido o pensamento é sim o grande obstáculo.

Precisamos lembrar que há distintos níveis de pensamentos e muitas vezes no estado meditativo surge na imensidão dos sentidos, pensamentos de níveis superiores, elevados de dimensão superior, que alimentam e nutrem nosso caminho, nosso despertar.

Não é este pensamento de ordem superior, o qual me refiro como obstáculo, mas sim ao pensamento que corrói, que aprisiona, que amedronta, ameaça e nos enganar, com ideias e temores sobre nós, sobre a vida, sobre o outro.

É um pensamento que nos ataca, nos alfineta, limita ou nos inflaciona, e de ambas as formas nos destrói.

Lamentavelmente este é o pensamento usual da consciência em vigília.

Lembrem-se a consciência de vigília pode ser um estado de muitas realizações, mas pode também ser um estado que serve de veículo à destruição quando é conduzido por estes pensamentos incessantes, quando é sequestrada por esse nível de realidade mórbida, obscura e ameaçadora vigente na contemporaneidade como “normal”.

Este tipo de pensamento existe no ar, na sociedade, no campo familiar, grupal, cultural; na atmosfera da consciência coletiva e vem para a consciência de vigília quando há uma ressonância compatível.

Quando a consciência de vigília está desnutrida dos elementos espirituais, éticos e amorosos torna-se então um espaço psíquico disponível a essa forma de pensamento, e acaba levando o indivíduo a identificar e acreditar que esta é a realidade.

A consciência coletiva está imbuída deste tipo de estado de pensamento vigente na consciência de vigília, uma consciência dominada, adormecida.

Nisto consiste a frase “despertai a consciência”.

Significa despertar dessa realidade enganosa da consciência coletiva que preenche o indivíduo e o torna torpe, adormecido e incapaz para o serviço maior da evolução, da compaixão, da ética, da ação correta.

A ação correta não é uma norma imposta de fora com regras; implica no fluir, na leveza, no bem-estar, na abertura, na expansão, na alegria, mesmo que estas impliquem em esforço e determinação.

Há nutrição, elevação, disposição interior.

Quando o fluxo é pesado, quando há inércia, medo ou ao contrário, raiva, excesso de agitação, ocorre um sinal de alerta: então pare, ouça; pare e respire com consciência corporal!

Óbvio que todos nós respiramos automaticamente todo tempo. Temos muitas vezes respirações curtas ou presas, ofegantes, sem consciência corporal do que está acontecendo nesse fluxo incessante da vida que flui.

A respiração com consciência traz você de volta à realidade corporal.

Aquela que esclarece, que conta e registra o que está acontecendo com você naquele momento.

Dependendo do estado de consciência essas informações corporais vão se alargando, se ampliando. Quanto mais consciência corpórea, mais informações são obtidas de seu estado, de seu momento atual.

Por isso na meditação fique consciente, fique no corpo. É a partir do seu próprio corpo que a expansão se dá, que a iluminação acontece.

Talvez nesse momento você possa se perguntar: – Então na morte e na doença não há iluminação?

É claro que há, porém com caminhos diferenciados com segmentos distintos e específicos para cada um destes contextos, tanto a doença física como na experiência da morte física.

A proposta que estamos discorrendo é a da condição humana considerada saudável, usual do dia a dia, que se deixa sequestrar pela normose coletiva, que vai padecendo de males da civilização contemporânea; que vivencia intensamente situações de stress, e que leva para si própria, não os benefícios da evolução, mas os venenos da mente dispersa.

Que vive a agitação contínua do desencontro, das relações insatisfatórias, da falta de amor consigo e com o outro. Do autoengano e supervalorização do “eu” que acha que é o todo consciente poderoso Este é o estágio em que grande parte da humanidade se encontra na vida cotidiana.

Uma grande população de seres trabalhadores, buscadores, seja de realização pessoal, de amor, de afeto, de trabalho. Mas buscadores muitas vezes cegos, que não enxergam o caminho.

É a esta condição de obscuridade mental que estamos refazendo e propondo o processo do despertar pelo sonho, pela meditação.

Nada impede em absoluto, que aqueles que estão acometidos por um processo de doença física, possam também seguir este processo e se beneficiar com os sonhos e a meditação.

 

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